ENTREVISTA COM ANA SIMÕES

Como descobriu o mundo da Ourivesaria?
O mundo da ourivesaria está presente na minha vida desde que nasci. O meu avô paterno era ourives e ainda tenho memórias da oficina onde trabalhava, especialmente do cheiro a metal e álcool. Lembro-me também que adorava abrir o cofre para ver a peças que fazia e os envelopes de papel repletos de pedrinhas de cor. Infelizmente, o meu avô faleceu quando eu era ainda muito nova e a ourivesaria desapareceu da minha vida até 2006, ano em que decidi desistir do curso de Arquitetura e dedicar-me ao mundo das joias. Em setembro de 2006 fui aceite no curso de Joalharia e Cravação do CINDOR e depois de acabar o curso, em 2009, decidi continuar os meus estudos em Londres. Em 2014 concluí, com distinção, a licenciatura em Joalharia na London Metropolitan University.

Terminou o curso de Ourivesaria em 2009. Considera que a sua passagem pelo CINDOR foi marcante?
A minha passagem pelo CINDOR foi extremamente marcante. Posso dizer que se não tivesse estudado no CINDOR, não teria a confiança que hoje tenho enquanto designer e joalheira. Aprendi imenso em termos técnicos e estou extremamente grata por toda a sabedoria partilhada comigo durantes aqueles três anos. Foi a generosidade dos mestres que me levou a querer partilhar o meu conhecimento com outras pessoas, pelo que hoje dedico parte do meu tempo a dar aulas de joalharia na Plymouth College of Art.

Quando surgiu a sua marca de ourivesaria?
A Ana Simões Jewellery surgiu apenas em 2018. Até aí fui uma das sócias da Muscari Jewellery, uma marca de joalharia sediada em Londres e estabelecida logo após concluir a minha licenciatura, em 2014. Os quatro anos que passei como diretora criativa da Muscari Jewellery foram muito importantes no meu desenvolvimento enquanto designer e empresária. Foram quatro anos de muitas conquistas e reconhecimento no Reino Unido, o que sedimentou ainda mais o meu desejo de estar à frente de uma marca homónima.

Quais as suas principais fontes de inspiração enquanto designer de joias?
A maior parte das minhas peças são inspiradas na arquitetura e costumes Portugueses. Tenho muito orgulho nas minhas raízes, acho que temos um país riquíssimo em termos de cultura e valores. Adoro revisitar padrões antigos que encontro nos azulejos e bordados e criar peças de joalharia que - para além de representarem um pouco de mim - apresentam uma estética intemporal.

Quais as matérias primas com que mais trabalha?
As matérias primas com as quais mais trabalho são os metais preciosos e as pedras preciosas. A minha marca prima pela qualidade e durabilidade dos materiais e por isso evito usar banhos de prata ou ródio, a não ser que seja requisitado por clientes. Também considero importante estar consciente do impacto ambiental que o ouro e a prata apresentam e por isso, sempre que possível, utilizo prata e ouro reciclados. Nos últimos anos desenvolvi uma preferência pelo ouro amarelo e por pedras preciosas naturais com lapidação rosa. Normalmente adquiro pedras únicas, de modo que grande parte das minhas peças são exclusivas.

Qual a peça da sua marca que considera mais emblemática? Porquê?
Não considero que exista uma só uma peça emblemática. Gosto de acreditar que todas as peças que produzo são especiais à sua maneira. Contudo, posso dizer que gosto imenso de trabalhar com os meus clientes de forma a criar peças exclusivas através da reutilização de joalharia antiga. Recentemente tive a oportunidade de derreter dentes de ouro oriundos da Rússia para fazer um par de brincos em ouro amarelo de 22k para uma das minhas clientes.

Como perspetiva a evolução da sua marca?
A minha experiência anterior deu-me as ferramentas necessárias para desenvolver uma estratégia realista para a minha nova marca. Ana Simões Jewellery prima pela estética intemporal, pela qualidade dos materiais usados e pelos métodos de produção. A minha marca depende imenso do contato direto com clientes e, por isso, o meu objetivo é assegurar um maior número de postos de venda dentro do próximo ano. Neste momento, o meu foco é apenas o mercado Britânico, mas planeio entrar no mercado Europeu e Norte Americano nos próximos dois anos.