ENTREVISTA COM ISABEL RAMOS

1. Como descobriu o mundo da ourivesaria?
Há gerações que a ourivesaria é uma profissão de família; algumas das memórias que guardo com mais carinho são do meu pai e do meu avô a trabalharem na oficina. A dado momento surgiu a ideia de tirar um curso profissional no CINDOR, que tinha a duração de três anos, após o qual cursei também Joalharia na ESAD, e, com o tempo, comecei a usá-la como meio de combinar os meus vários interesses – sempre tive gosto e pendor para as artes. A necessidade de converter o que gosto de fazer também num modo de vida foi o passo decisivo para dar forma à ideia.

2. Terminou o curso de Ourivesaria em 2008. Considera que a sua passagem pelo CINDOR foi marcante?
No CINDOR tive a sorte de frequentar um curso que me permitiu uma formação geral em todas as áreas: cinzelagem, cravação, prataria, filigrana, etc., o que, de outro modo, e noutro contexto, não teria sido possível, não de forma tão abrangente. Nesse sentido, sim, considero que foi fundamental e marcante. Não me ocorreriam as soluções que ocorrem diariamente no meu trabalho sem essa formação.

3. Quando surgiu a sua marca de ourivesaria?
Embora as raízes do projeto sejam mais profundas, no sentido de que as coisas se foram conjugando certamente para formar, a dado ponto, algo novo, formalmente a marca existe desde 2014.

4. Quais as suas principais fontes de inspiração enquanto designer de jóias?
Sobretudo, dois elementos: o mundo natural, sobretudo formas orgânicas; e a combinação entre técnicas tradicionais com um meio expressivo diferente. Por exemplo, filigrana (técnica tradicional) em formas não tradicionais ou pelo menos não habituais. Arte e natureza, portanto, ou ambos . Coisas como livros de ilustração de botânica tendem a ser fontes de ideias. Outro exemplo de inspiração em técnicas existentes, com uma inflexão pessoal, são os origamis.

5. Quais as matérias primas com que mais trabalha?
Trabalho sobretudo com prata e ouro, embora algumas peças contenham outros materiais.

6. Qual a peça da sua marca que considera mais emblemática? Porquê?
Se tivesse de escolher uma peça para, de algum modo, representar o que faço em geral, seriam talvez os brincos e colares “prunus” isto é, a série inspirada em raminhos de ameixeira, pelo valor afetivo e simbólico do modelo. Mas também porque de algum modo exprime uma ideia central para o meu projeto: pegar num fragmento do mundo quotidiano, algo no qual normalmente não repararíamos ou não focaríamos a atenção, como um pedaço de uma planta, encontrar beleza aí e, de alguma maneira, preservá-lo, tentar dar permanência ao que achamos de belo no frágil e transitório.

7. Como perspetiva a evolução da sua marca?
Um dos principais aspetos em que penso, no que diz respeito à evolução da marca, é a diversificação do público alvo. Por um lado, a internacionalização – temos já peças em lojas noutros países, dentro do espaço comunitário, mas a nível ainda incipiente, pelo que o desafio passa por alargar essa base. Mas também, por outro lado, na diversidade interna do próprio público: várias das nossas peças são vendidas tanto para crianças como para adultos, e ainda há uma área que nos últimos tempos se nota cada vez mais, embora não a tenhamos explorado muito, que são as peças para homem. Para além disto, a ideia é tentar pensar sempre em novos modos de integrar o tradicional num meio de expressão ou com um conteúdo diferente. Procuramos fazer isto em todas as peças mas, evidentemente, não se pode reproduzir sempre a mesma receita, há que pensar em ideias novas, novas formas de preservar o essencial!